Por : Aline Lilian
Maisa Zickuhr
Num suspiro que mesclava saudade e esperança, Cacilda ergueu o olhar como em uma tentativa de enxergar os momentos mais marcantes de sua juventude. Sem muito esforço, resgatou de sua memória uma das várias experiências renovadoras e intensas que diz ter vivido durante seus 72 anos. Aconteceu na década de 50, quando era apenas um “broto”, mas possuía fôlego de gente grande para participar dos inesquecíveis bailes de Carnaval, que geralmente aconteciam nos pequenos salões da cidade ou nas residências das pessoas. O Carnaval de rua, as manifestações mais contagiantes da época, também foi relembrado com carinho por Cacilda. “Ah, era uma festa tão grande! Não havia quem ficasse parado, ainda mais quando fazíamos os famosos ‘cordões’”, explica ela, sobre uma brincadeira bastante típicas da época. Consistia em formar uma fila em que as pessoas, corriam de mãos dadas, enquanto cantavam as chamadas marchinhas, pulavam e jogavam serpentinas e confetes coloridos pela cidade. Apesar de ter sofrido consideráveis transformações em decorrência dos novos hábitos adquiridos e do tempo, algumas tradições primitivas e que compõem a esência do Carnaval se mantém, mesmo que seja de forma bastante diferente. As fantasias, por exemplo, antigamente usava-se vestimentas que faziam alusão a personagens famosos da ficção, como super-heróis, protagonistas de contos de fadas ou figuras de características muito específicas. “Era muito comum se ver os foliões fantasiados de Flash Gordon, Zorro, Pierrô Apaixonado e Odalisca”, conta a nossa convidada.
Faz referência ainda às mudanças de comportamento nos dias de hoje: “Para mim, o Carnaval perdeu muito de seu sentido real, que foi moldado pela nossa geração. Agora, quanto menos roupa se usa, melhor. Toda aquela magia e esperança que se sentia quando íamos escolher a melhor e mais criativa fantasia do baile, se perdeu. Não é mais uma festa familiar como antigamente. Ainda lembro uma vez que a minha irmã, Odete, ganhou o prêmio de melhor foliã do ano de 1957, ficamos muito felizes. Hoje, a exposição exagerada do corpo, tornou o carnaval muito banal”. Em 50, já havia a transmissão da folia pela televisão, assim como hoje. Os bailes dos maiores salões da cidade eram os principais alvos. Na época, a entrada nesses lugares exigiam que os carnavalescos pagassem um valor consideravelmente alto, por isso essas festas eram direcionadas a determinadas camadas da sociedade. Entretanto, isso não era motivo para o Carnaval se restringir a somente um tipo de público. Cacilda garante que presenciou momentos muito especiais nos salões menores que se localizavam no Largo do Belém, em São Paulo: “Cada vez que eu ouvia as marchinhas `Jardineira´, `Aurora´ e `Bandeira Branca´, da famosa cantora Dalva de Oliveira, me animava na hora. Me lembro de cada detalhe, principalmente o lança perfume, que era permitido na época, era a sensação dos bailes.”



Concordo com a Cacilda, o carnaval hoje é uma festa banalizada e muitas vezes vulgar, ontem o que se via eram fantasias elaboradas e hoje corpos a mostra ou praticamente nus.
Talvez por isso a cidade mais visitada do carnaval tem retomado o carnaval antigo.
As pessoas não aguentam mais essa vulgarização.