Por: Flavia Prado e Vanessa Spatafora
Uma história de 77 anos de felicidades e desilusões; de mudanças bruscas e de caminhos cruzados; de grande amizade e muito preconceito. Essa é a vida de seu Tide. Negro, forte, “da melhor idade”, músico, funcionário público, meio marceneiro, meio pedreiro, meio encanador, meio eletricista, meio mecânico, marido, pai e avô.
Os inúmeros personagens contidos nesse homem, que nasceu na pequena Bauru, começaram a aflorar quando ele chegou à nossa capital; à terra da garoa. Nas mãos e nas malas não trazia nada. Como bagagem, apenas os sonhos. Na mente, o único objetivo: um emprego.
E, foi aí que a estrada entortou!
Desde cedo, Seu Tide provou o veneno do preconceito. Aprendeu que as pessoas elegem particularidades para tratar as outras. Entendeu que discriminação racial é uma realidade concreta, apesar de sermos filhos de uma terra misturada, mestiça, miscigenada. Provou de muitas conversas, mas de poucos amigos; de muitos caminhos, mas de poucas saídas. Independente do rumo ou trajetória, o tal gosto amargo sempre o acompanhava.
Na prefeitura da cidade de São Paulo – seu primeiro e único emprego – nunca foi tratado como os demais. Se pedia favores, eles sempre ficavam pra depois, quando não, eram mal feitos ou, simplesmente, não feitos.
Até na igreja encontrou diferenças. Nem nela o bom cristão via-se amparado. Seu Tide relembra o episódio em que foi substituído do time de futebol da igreja. Um outro jogador, branco, que nunca havia disputado sequer uma partida, entrou em seu lugar.
O homem, de personalidade forte, achou o fato engraçado: ele era o único negro do time e o único jogador que foi substituido. Desapontado com a decisão dos outros fiéis, buscou uma nova casa, na qual pudesse se sentir bem. Marcado por esse episódio, Seu Tide, deixou a igreja católica e passou à frequentar os cultos da Congregação Cristã do Brasil.
Na nova igreja, conheceu os dois grandes amores de sua vida: Dona Maria, sua futura esposa e o jazz. O homem, amante do saxofone, conta com saudade todo o tempo que passou.
Para sua infelicidade, também entendeu que mesmo entre os chamados “irmãos”, existe preconceito. Tratavam-lhe como igual, mas só quando a necessidade surgia é que seu Tide reconhecia os poucos amigos. E reconheceu, durante a reforma de sua casa, como é fazer parte de um grupo de iguais tão diferentes.
Foi então que Oristildes aprendeu um pouco sobre a arte de construir, para suprir a própria necessidade não encontrada em alguém que considerou como amigo e irmão.
Pisos mal colocados, paredes mal feitas, caminhões de areia cobrados por inteiro e entregues pela metade, e a forte lembrança das palavras de um vizinho alemão – ” não devemos nunca nos ater ao salário que ganhamos, precisamos saber sempre mais” – contribuiram para que seu Tide fortalecesse a gama de aprendizados paralelos ao serviço na prefeitura, bem como para sua descrença nas pessoas ao seu redor.
Quando já descrente na bondade e sentimento de igualdade entre os homens, seu Tide conheceu alguém que veio, por anos, ser seu grande amigo. Um advogado que lhe estendeu a mão em um período de pouca fé. A quem pede todas as noites para que sua sorte seja boa e nada lhe falte.
Um novo horizonte abriu-se nessa estrada de desencontros e decepções, e durante anos percebeu que pode haver igualdade entre pessoas tão diferentes.












